25 novembro 2016

Escrever é construir barreiras para o infinito


Toda vez que se começa o livro, a página em branco representa o infinito. Tendo escrito dois – um de não ficção e outro de ficção –, posso dizer que o desafio do segundo foi muito maior. Na ficção, todas as possibilidades estão à mão. E um autor precisa tomar decisões o tempo todo. Definir um começo, um meio e um fim para esse infinito.
Não consigo começar a escrever sem ter uma ideia clara sobre o meu ponto de partida e o de chegada. Essas fronteiras são sempre maleáveis, mas o fato é que o início e o fim precisam estar bem definidos para que o recheio possa ser preenchido com tempo e paciência, idas e voltas, escrita e revisão.
Meu terceiro livro – claro que não vou entregar os detalhes agora – está começando a ser colocado no papel neste momento. Foram muitas escolhas a fazer antes da primeira frase. Os personagens terão conhecimento prévio de todos os acontecimentos ou vão descobri-los junto com o leitor? Eles serão acompanhados durante todo o decorrer de sua vida ou somente num período específico? Quem dará voz à narrativa: o próprio personagem ou um observador?
Para este novo livro, testei algo que nunca havia feito antes. Dei-me ao luxo de fazer ensaios de texto com diferentes estilos de narração para entender o que funcionava melhor nesse caso específico. Preciso revelar, contudo, que tenho uma queda por obras que tragam como narrador alguém envolvido na trama, e não externo a ela.
Está em cartaz nos cinemas um filme bastante acadêmico e tradicional, mas que discute literatura de maneira realista, abordando as concessões que um autor precisa (e deve) fazer para tornar seu trabalho melhor. Trata-se de Mestre dos gênios, sobre o editor Max Perkins e sua relação com o escritor Thomas Wolfe. No elenco, só feras: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman e Laura Linney.
No caso de Mestre dos gênios, além do relacionamento próximo com o intempestivo Wolfe e dos conflitos domésticos de ambos, o roteiro ainda lança mão de personagens secundários como F. Scott Fitzgerald (vivido por Guy Pearce) e Ernest Hemingway (Dominic West). É uma espécie de versão bem mais dramática das negociações (e discussões) entre um autor e um editor.
Mestre dos gênios me fez recordar de outro filme sobre literatura que me agrada muito: Garotos incríveis, em que o diálogo “escrever é fazer escolhas” me marcou muito. Quinze anos depois de ter assistido ao filme, sempre que estou em dúvida sobre uma solução narrativa, agarro-me à convicção de que é necessário parar e refletir: o que faz sentido dentro do mundo particular que está sendo criado?
Fazer escolhas e desapegar de boas ideias que não fazem sentido em uma narrativa é um bom ponto de partida. A vantagem de se construir um mundo particular composto de palavras é que sempre dá para corrigir o destino no meio do caminho.


Um comentário:

  1. Adorei o texto! Escolha continuar sempre escrevendo, lendo, criando sempe. Parabéns pelo blog!

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