15
nov
2016
Os dias escuros - Carlos Drummond de Andrade
Categorias:
contos•
Drummond•
literatura brasileira
Amanheceu um dia sem luz – mais um – e há
um grande silêncio na rua. Chego à janela e não vejo as figuras
habituais dos primeiros trabalhadores. A cidade, ensopada de chuva,
parece que desistiu de viver. Só a chuva mantém constante seu movimento
entre monótono e nervoso. É hora de escrever, e não sinto a menor
vontade de fazê-lo. Não que falte assunto. O assunto aí está, molhando,
ensopando os morros, as casas, as pistas, as pessoas, a alma de todos
nós. Barracos que se desmancham como armações de baralho e, por baixo de
seus restos, mortos, mortos, mortos. Sobreviventes mariscando na lama, à
pesquisa de mortos e de pobres objetos amassados. Depósito de gente no
chão das escolas, e toda essa gente precisando de colchão, roupa de
corpo, comida, medicamento. O calhau solto que fez parar a adutora. Ruas
que deixam de ser ruas, porque não dão mais passagem. Carros submersos,
aviões e ônibus interestaduais paralisados, corrida a mercearias e
supermercados como em dia de revolução. O desabamento que acaba de
acontecer e os desabamentos programados para daqui a poucos instantes.
Este, o Rio que tenho diante dos olhos, e,
se não saio à rua, nem por isso a imagem é menos ostensiva, pois a
televisão traz para dentro de casa a variada pungência de seus horrores.
Sim, é admirável o esforço de todo mundo
para enfrentar a calamidade e socorrer as vítimas, esforço que chega a
ser perturbador pelo excesso de devotamento desprovido de técnica. Mas
se não fosse essa mobilização espontânea do povo, determinada pelo
sentimento humano, à revelia do governo incitando-o à ação, que seria
desta cidade, tão rica de galas e bens supérfluos, e tão miserável em
sua infraestrutura de submoradia, de subalimentação e de condições
primitivas de trabalho? Mobilização que de certo modo supre o eterno
despreparo, a clássica desarrumação das agências oficiais, fazendo
surgir de improviso, entre a dor, o espanto e a surpresa, uma corrente
de afeto solidário, participante, que procura abarcar todos os
flagelados. Chuva e remorso juntam-se nestas horas de pesadelo, a chuva
matando e destruindo por um lado, e, por outro, denunciando velhos erros
sociais e omissões urbanísticas; e remorso, por que escondê-lo? Pois
deve existir um sentimento geral de culpa diante de cidade tão
desprotegida de armadura assistencial, tão vazia de meios de defesa da
existência humana, que temos o dever de implantar e entretanto não
implantamos, enquanto a chuva cai e o bueiro entope e o rio enche e o
barraco desaba e a morte se instala, abatendo-se de preferência sobre a
mão de obra que dorme nos morros sob a ameaça contínua da natureza; a
mão de obra de hoje, esses trabalhadores entregues a si mesmos, e
suas crianças que nem tiveram tempo de crescer para cumprimento de um
destino anônimo.
No dia escuro, de más notícias esvoaçando,
com a esperança de milhões de seres posta num raio de sol que teima em
não romper, não há alegria para a crônica, nem lhe resta outro sentido
senão o triste registro da fragilidade imensa da rica, poderosa e
martirizada cidade do Rio de Janeiro.
Correio da Manhã, 14/01/1966.
postado por
Kleyde
Canceriana, 24 anos, Baiana, Escritora, 5 livros publicados, Graduada em Engenharia Elétrica. Apaixonada por Harry Potter, livros, séries, chocolates, cheiro de chuva, culinária e viagens. Futura engenheira, fotógrafa amadora e atriz nas horas vagas. Não começa o dia sem uma xícara de café nem termina sem uma de chá.


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